HIS, HMP e a discussão sobre áreas comuns: o mercado precisa de equilíbrio, não de polarização

Nos últimos dias, uma reportagem da Folha de S.Paulo trouxe à tona um tema que já vinha sendo debatido nos bastidores do mercado imobiliário: a divisão de áreas comuns em empreendimentos com unidades HIS e HMP em São Paulo.

A discussão rapidamente ganhou um tom emocional.

Mas, juridicamente e urbanisticamente, o tema é muito mais complexo do que parece.

E acredito que justamente por isso o debate precisa ser feito com responsabilidade, profundidade e visão técnica.

Primeiro: o que pouca gente está explicando

Em muitos empreendimentos, a divisão operacional já consta:

  • na matrícula,
  • na incorporação imobiliária,
  • no memorial descritivo,
  • e principalmente na convenção de condomínio.

Ou seja:

em diversos casos, o comprador adquiriu a unidade já sabendo exatamente:

  • quais áreas seriam compartilhadas,
  • quais estruturas seriam independentes,
  • quais custos seriam rateados,
  • e como funcionaria a dinâmica do empreendimento.

Isso é importante porque a convenção condominial possui respaldo jurídico dentro do ordenamento brasileiro.

O próprio Código Civil, no artigo 1.333, estabelece que a convenção constitui norma obrigatória para condôminos.

Além disso, o artigo 1.334 prevê que ela pode disciplinar:

  • uso das áreas,
  • administração,
  • rateio,
  • direitos e deveres internos do condomínio.

Ou seja:

não se trata apenas de uma “decisão informal” das incorporadoras.

Existe uma estrutura jurídica previamente registrada.

Mas então por que isso virou debate público?

Porque a discussão ultrapassou a esfera privada contratual.

A Prefeitura passou a analisar se determinados modelos poderiam contrariar:

  • a função social da cidade,
  • a finalidade urbanística da HIS,
  • e princípios constitucionais ligados à moradia e integração urbana.

E aqui existe um ponto importante:

o fato de algo constar em contrato não impede automaticamente discussão jurídica futura.

O Direito Urbanístico funciona exatamente assim.

Existem situações em que:

  • a autonomia privada,
  • o direito de propriedade,
  • e os contratos

precisam coexistir com:

  • interesse coletivo,
  • política urbana,
  • e função social prevista na Constituição Federal.

É por isso que o debate ganhou essa dimensão.

O mercado também precisa ser ouvido

Ao mesmo tempo, existe uma realidade prática que não pode ser ignorada.

Empreendimentos possuem custos operacionais completamente diferentes.

Uma torre com:

  • concierge,
  • academia premium,
  • spa,
  • coworking,
  • piscina climatizada,
  • serviços pay-per-use,
  • e manutenção de alto padrão

gera uma taxa condominial muito superior.

E aqui surge um ponto técnico importante:

misturar integralmente estruturas com perfis econômicos completamente diferentes pode gerar inadimplência condominial futura e desequilíbrio financeiro do empreendimento.

Esse é um debate econômico legítimo.

Porque inclusão habitacional também depende de sustentabilidade operacional.

Não basta apenas permitir acesso à moradia.

É preciso garantir permanência saudável no longo prazo.

O erro está nos extremos

Na minha visão, o erro está justamente na polarização simplista.

Transformar automaticamente todo empreendimento misto em “segregação” ignora aspectos:

  • jurídicos,
  • financeiros,
  • urbanísticos,
  • e operacionais.

Por outro lado, tratar o tema apenas como uma questão contratual também minimiza um debate social legítimo sobre convivência urbana e integração habitacional.

O mercado imobiliário brasileiro vive uma transformação profunda.

As grandes cidades precisam aumentar densidade urbana, aproximar moradia de infraestrutura e criar cidades mais funcionais.

E HIS e HMP tiveram papel extremamente importante nisso.

Mas talvez estejamos entrando agora em uma segunda fase da discussão:

não apenas como construir mais habitação…

mas como construir modelos urbanos sustentáveis socialmente, juridicamente e financeiramente.

Um exemplo simples para entender

Imagine um empreendimento com:

  • uma torre HIS,
  • uma torre de médio padrão,
  • e uma torre de alto padrão.

Se todas as estruturas forem integralmente compartilhadas, o custo condominial tende a subir para todos.

Se tudo for completamente separado, surge a crítica de fragmentação social.

Então o desafio do mercado daqui para frente talvez seja justamente encontrar modelos híbridos mais inteligentes:

  • áreas integradas,
  • gestão equilibrada,
  • rateios proporcionais,
  • e transparência absoluta para o comprador desde o início.

Porque previsibilidade jurídica também protege o consumidor.

O principal aprendizado para o comprador

Essa discussão trouxe um alerta importante para investidores e compradores.

As pessoas ainda analisam muito:

  • metragem,
  • localização,
  • decoração,
  • valor do metro quadrado.

Mas esquecem de estudar:

  • convenção condominial,
  • incorporação,
  • regras de uso,
  • estrutura financeira do condomínio,
  • e impactos futuros de convivência e operação.

E isso pode definir completamente:

  • a experiência do morador,
  • a liquidez do imóvel,
  • e até a valorização futura do ativo.

Na minha opinião, o mercado precisa tratar esse tema com menos emoção e mais inteligência técnica.

Nem toda divisão operacional nasce de preconceito.

Muitas vezes ela nasce de engenharia financeira e viabilidade econômica.

Mas também é verdade que o setor precisará tomar cuidado para que soluções operacionais não criem barreiras sociais excessivas dentro das cidades.

O grande desafio daqui para frente não será apenas vender imóveis.

Será construir cidades mais equilibradas.

E isso exige diálogo entre:

  • incorporadoras,
  • urbanistas,
  • poder público,
  • juristas,
  • investidores,
  • e sociedade.

Porque o futuro do mercado imobiliário não será definido apenas pela planta do empreendimento.

Será definido pelo modelo de cidade que estamos construindo.

Está gostando deste conteúdo? Compartilhe!

Últimos artigos

Inglês: o investimento que continua valorizando pelo resto da vida

Série: A Jornada do Mercado Imobiliário. Episódio 15 | O que acontece depois que um bairro recebe um grande empreendimento? A transformação que quase ninguém percebe.

Série: A Jornada do Mercado Imobiliário Episódio 14 | Quanto uma incorporadora realmente ganha? Os números que quase ninguém conhece

Série: A Jornada do Mercado Imobiliário. Episódio 13 | Quanto realmente custa construir um prédio? A conta que quase ninguém conhece.