Quando as pessoas veem um estande de vendas cheio ou um empreendimento com boa parte das unidades comercializadas antes mesmo da construção começar, muitas imaginam que isso acontece apenas porque o mercado está aquecido. Mas a realidade é muito mais estratégica.
Um lançamento imobiliário é resultado de meses , e, muitas vezes, anos de planejamento.
Antes de qualquer campanha publicitária, existe uma pergunta que norteia toda a operação: quem é o cliente que vai comprar esse imóvel?
Essa resposta muda absolutamente tudo.
Não é o arquiteto sozinho que decide a planta. Não é o engenheiro sozinho que define o empreendimento. Antes disso, incorporadoras realizam pesquisas de mercado para entender o comportamento do consumidor.
Será que aquela região precisa de apartamentos compactos para investidores? Ou o perfil predominante é de famílias procurando três suítes? Existe demanda por studios? O comprador valoriza varanda gourmet ou prefere um espaço para home office? Vale mais investir em uma academia completa ou em um coworking?
Cada resposta altera o projeto.
Por isso, um empreendimento imobiliário nasce muito antes do concreto. Ele nasce entendendo pessoas.
Existe um dado interessante: segundo pesquisas do setor, mais de 80% da decisão de compra de um imóvel está relacionada à localização, à confiança na incorporadora e ao conceito do empreendimento, muito antes de o comprador analisar detalhes como revestimentos ou acabamentos.
Depois dessa etapa, começa o desenvolvimento do produto.
Arquitetos desenham as plantas, engenheiros estudam a melhor solução estrutural, designers desenvolvem os ambientes e o marketing começa a construir a identidade do empreendimento.
É nesse momento que surgem o nome do projeto, a marca, o conceito, o slogan e toda a comunicação.
Parece apenas publicidade.
Mas não é.
É posicionamento.
Imagine dois edifícios praticamente iguais.
Os dois possuem apartamentos de 100 metros quadrados.
O primeiro é apresentado apenas como um prédio residencial.
O segundo é vendido como um empreendimento focado em bem-estar, tecnologia, sustentabilidade e qualidade de vida.
Embora tenham praticamente a mesma estrutura, a percepção de valor muda completamente.
No mercado imobiliário, percepção também gera valorização.
Depois disso chega uma etapa que desperta muita curiosidade: o apartamento decorado.
Muita gente acredita que ele serve apenas para deixar o ambiente bonito.
Na realidade, ele tem uma função muito maior.
Ele ajuda o comprador a visualizar algo que ainda não existe.
É muito mais fácil imaginar sua família morando em um ambiente pronto do que olhando apenas para uma planta baixa.
Hoje essa experiência ficou ainda mais sofisticada.
Diversas incorporadoras utilizam realidade virtual, imagens em alta definição, passeios em 360 graus e inteligência artificial para apresentar o empreendimento antes mesmo da obra começar.
Mas existe outro motivo para lançar um empreendimento antes da construção.
Fluxo financeiro.
Quando as primeiras unidades começam a ser vendidas, a incorporadora reduz riscos, fortalece seu caixa e demonstra para bancos e investidores que aquele projeto possui demanda real.
Quanto maior a procura durante o lançamento, maior costuma ser a confiança do mercado naquele empreendimento.
É por isso que um dos indicadores mais acompanhados pelas incorporadoras é o VSO — Vendas Sobre Oferta.
Ele mede a velocidade com que as unidades são comercializadas.
Imagine dois empreendimentos com 150 apartamentos.
O primeiro vende 100 unidades em apenas três meses.
O segundo comercializa apenas 20.
Embora ambos estejam na mesma fase da obra, o comportamento do mercado é completamente diferente.
Um demonstra alta aceitação.
O outro exige revisão de estratégia, preço ou posicionamento.
Outro ponto importante é entender como nasce o preço de um imóvel.
Não existe uma fórmula simples.
O valor não depende apenas do metro quadrado.
Ele considera o custo do terreno, a localização, o padrão construtivo, a arquitetura, os diferenciais do projeto, a infraestrutura do bairro, a concorrência, a expectativa de valorização, os custos financeiros e até o cenário econômico do país.
Por isso, dois apartamentos com a mesma metragem podem ter preços completamente diferentes.
O que muda é o valor percebido pelo mercado.
Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a construção civil representa cerca de 6% do PIB brasileiro e movimenta centenas de bilhões de reais todos os anos. Cada lançamento gera impacto direto em uma extensa cadeia econômica, envolvendo arquitetos, engenheiros, designers, indústrias, fornecedores, transportadoras, corretores, instituições financeiras e milhares de empregos.
No fim, percebo que um lançamento imobiliário não vende apenas apartamentos.
Ele vende confiança.
Vende planejamento.
Vende segurança.
Vende uma expectativa de futuro.
Quando alguém compra um imóvel na planta, não está investindo apenas em concreto. Está confiando na capacidade de uma incorporadora transformar um terreno vazio em um patrimônio que poderá fazer parte da história de uma família durante décadas.
Talvez essa seja a maior curiosidade do mercado imobiliário: os melhores empreendimentos começam a ser vendidos muito antes de existirem fisicamente. Porque, antes de construir edifícios, o mercado precisa construir credibilidade.
Próximo episódio
No próximo capítulo da série, vamos finalmente entrar no canteiro de obras e entender como uma construção realmente começa. Da terraplenagem à fundação, vou mostrar por que a etapa que ninguém vê costuma ser a mais importante de toda a obra.
