Série: A Jornada do Mercado Imobiliário Episódio 7 | Como um prédio ganha forma? A engenharia por trás de pilares, vigas e lajes


Existe um momento em toda obra que chama a atenção de quem passa pela rua. Depois de semanas olhando apenas escavações e fundações, o edifício finalmente começa a surgir. A cada poucos dias aparece um novo pavimento e parece que o prédio cresce quase da noite para o dia. Mas o que pouca gente imagina é que esse crescimento segue uma sequência extremamente calculada.

Na engenharia, essa etapa é chamada de estrutura. É ela que forma o verdadeiro esqueleto do edifício e será responsável por suportar todo o peso da construção durante décadas.

Tudo começa pelos pilares. Eles são os elementos verticais responsáveis por conduzir todas as cargas do prédio até a fundação. Imagine uma torre de 25 andares. O peso dos apartamentos, das pessoas, dos móveis, dos veículos na garagem, da água armazenada nos reservatórios e até da ação do vento percorre um caminho muito bem definido até chegar ao solo. Os pilares são parte fundamental desse processo.

Depois entram as vigas. Elas fazem a ligação entre os pilares e distribuem as cargas para toda a estrutura. Em seguida são executadas as lajes, que formarão os pisos e os tetos dos apartamentos. Quando pilares, vigas e lajes trabalham em conjunto, nasce a estrutura capaz de sustentar o edifício.

Uma curiosidade interessante é que um prédio não suporta apenas seu próprio peso. Os cálculos estruturais consideram diversas situações futuras. Além do peso permanente da construção, entram na conta o peso das pessoas, móveis, veículos, equipamentos, reservatórios cheios, ação do vento, dilatação causada pela temperatura e até possíveis manutenções que acontecerão ao longo da vida útil da edificação.

No Brasil, os projetos estruturais seguem rigorosamente as normas técnicas da ABNT, especialmente a NBR 6118, que estabelece critérios para o dimensionamento das estruturas de concreto armado. Antes que uma única armação seja montada, milhares de cálculos já foram realizados para garantir que cada elemento suporte exatamente as cargas previstas.

Hoje, praticamente todos esses cálculos são desenvolvidos com softwares de engenharia estrutural e tecnologia BIM. Isso permite simular o comportamento do edifício antes mesmo do início da obra, reduzindo erros e aumentando a segurança.

Você já deve ter ouvido alguém dizer que “um prédio está subindo um andar por semana”. Isso realmente acontece em muitos empreendimentos. Em edifícios de grande porte, a execução da estrutura costuma seguir ciclos repetitivos de aproximadamente 5 a 10 dias por pavimento, dependendo do método construtivo, da equipe e da complexidade da obra. Quanto mais organizado o planejamento, maior tende a ser a produtividade.

Outro ponto que desperta curiosidade é o concreto.

Muitas pessoas imaginam que basta despejá-lo nas formas.

Na realidade, cada concreto possui uma resistência específica definida em projeto. Antes da concretagem, engenheiros conferem armações, formas, posicionamento das instalações elétricas e hidráulicas que ficarão embutidas e diversos outros detalhes. Depois da concretagem, amostras são coletadas para ensaios em laboratório, verificando se o concreto atingiu a resistência prevista.

O aço também desempenha um papel fundamental. Enquanto o concreto resiste muito bem à compressão, o aço oferece excelente resistência à tração. A combinação desses dois materiais deu origem ao concreto armado, uma das maiores revoluções da engenharia moderna e responsável pela construção de edifícios cada vez mais altos e seguros.

Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a construção civil representa aproximadamente 6% do PIB brasileiro e movimenta uma cadeia composta por milhares de fornecedores, indústrias e profissionais. Somente durante a fase estrutural, trabalham simultaneamente engenheiros, mestres de obras, armadores, carpinteiros, operadores de equipamentos, laboratoristas e equipes de controle tecnológico.

Existe ainda uma etapa quase invisível, mas extremamente importante: o controle de qualidade. Cada pavimento é conferido com equipamentos de topografia e níveis a laser para garantir alinhamento, prumo e dimensões exatas. Um pequeno desvio nos primeiros andares poderia gerar problemas em toda a edificação.

Talvez seja por isso que eu gosto tanto da engenharia estrutural. Ela nos mostra que grandes construções não dependem apenas de materiais resistentes. Elas dependem de precisão, planejamento e execução impecável.

Quando você olhar para um edifício em construção e perceber um novo pavimento surgindo, lembre-se de que aquilo não aconteceu apenas porque o concreto secou. Cada centímetro daquela estrutura foi calculado, conferido e executado para que aquele prédio permaneça seguro por muitas décadas.

No próximo episódio

Vamos entrar em uma das fases mais técnicas da obra: as instalações elétricas, hidráulicas, de gás e prevenção contra incêndio. Vou mostrar por que a maior parte da tecnologia de um edifício fica escondida dentro das paredes e como esses sistemas funcionam para garantir conforto, eficiência e segurança todos os dias.

Glossário da Jornada Imobiliária

Concreto armado

É a união do concreto com barras de aço. Enquanto o concreto suporta muito bem o peso (compressão), o aço suporta os esforços de tração. Juntos, formam uma estrutura resistente e segura.

Pilar

Elemento estrutural vertical que recebe o peso do edifício e o transmite para a fundação.

Viga

Estrutura horizontal que conecta os pilares e distribui o peso das lajes e paredes.

Laje

É a estrutura que forma os pisos e os tetos de cada pavimento do edifício.

Estrutura

É o conjunto formado por fundações, pilares, vigas e lajes. Funciona como o esqueleto do prédio.

Concretagem

É o processo de lançamento e adensamento do concreto nas formas que darão origem aos elementos estruturais.

Topografia

É o levantamento técnico do terreno e das medidas da obra, garantindo que tudo seja construído exatamente nas posições definidas no projeto.

Controle tecnológico

São ensaios realizados durante a obra para verificar se materiais como concreto e aço atendem às especificações técnicas e às normas de segurança.

BIM (Building Information Modeling)

É uma metodologia que cria um modelo digital inteligente da construção. Diferente de um desenho em 3D, o BIM reúne todas as informações do empreendimento em um único modelo: arquitetura, estrutura, instalações elétricas, hidráulicas, orçamento, cronograma e manutenção. Assim, engenheiros e arquitetos conseguem identificar conflitos antes da obra começar, reduzir desperdícios e aumentar a produtividade.

ABNT NBR 6118

É a principal norma técnica brasileira para o projeto de estruturas de concreto. Ela define critérios de segurança, dimensionamento e execução para que os edifícios tenham resistência e durabilidade.

Prumo

É o alinhamento perfeitamente vertical de uma parede, pilar ou estrutura.

Nível

É o alinhamento horizontal correto de pisos, lajes e demais elementos da construção.

Está gostando deste conteúdo? Compartilhe!

Últimos artigos

Série: A Jornada do Mercado Imobiliário. Episódio 30 -Antes do apartamento existir, alguém precisou provar que ele deveria existir

Série: A Jornada do Mercado Imobiliário. Episódio 29- O prédio vendeu R$ 100 milhões. Quanto realmente ficou para a incorporadora?

Série: A Jornada do Mercado Imobiliário. Episódio 28- Você comprou um imóvel na planta. Para onde vai o dinheiro antes de o prédio ficar pronto?

Série: A Jornada do Mercado Imobiliário – Episódio 27- A parcela cabe no bolso. Mas você sabe quanto vai pagar pelo imóvel no final?