Série: A Jornada do Mercado Imobiliário. Episódio 20 Consórcio imobiliário: quando ele realmente faz sentido?

Uma das perguntas que mais recebo é: “Vale mais a pena fazer um consórcio ou um financiamento?” E a minha resposta quase sempre decepciona quem espera uma fórmula pronta: depende. No mercado imobiliário, poucas decisões são universais. O que faz sentido para uma pessoa pode ser um erro para outra. A escolha não depende apenas da taxa, mas do momento de vida, dos objetivos e, principalmente, do tempo.

Vou dar um exemplo. Imagine duas irmãs. A primeira acabou de aumentar a família e precisa mudar de apartamento nos próximos meses. Encontrou o imóvel ideal, negociou o preço e não pode esperar. Para ela, o financiamento provavelmente é a solução mais inteligente, porque entrega aquilo que ela mais precisa hoje: acesso imediato ao imóvel.

Agora pense na irmã mais nova. Ela ainda mora de aluguel, não tem urgência para comprar e quer formar patrimônio ao longo dos próximos anos. Nesse cenário, talvez o consórcio faça muito mais sentido. Perceba que nenhuma das duas está errada. A diferença está na estratégia.

O consórcio funciona como uma compra planejada. Um grupo de pessoas contribui mensalmente para formar um fundo comum e, ao longo do tempo, os participantes são contemplados por sorteio ou por lance. Quando isso acontece, recebem uma carta de crédito para adquirir o imóvel.

Muita gente diz que o consórcio “não tem juros”. Tecnicamente, essa afirmação está correta. Mas isso não significa que ele seja gratuito. Existe uma taxa de administração prevista em contrato, além de outros custos que variam conforme a administradora. Por isso, comparar apenas o valor da parcela costuma ser um erro. O que realmente deve ser analisado é o custo total da operação.

Outro ponto importante é entender que tempo também custa dinheiro. Quem precisa do imóvel agora pode perder boas oportunidades esperando uma contemplação. Por outro lado, quem não tem urgência pode utilizar o consórcio como uma forma disciplinada de construir patrimônio, pagando parcelas mensais enquanto se prepara para a compra.

É justamente por isso que muitos investidores utilizam o consórcio de maneira estratégica. Conheço empresários que mantêm um grupo de consórcio ativo praticamente o tempo todo. Quando uma carta de crédito é contemplada, ela é utilizada para adquirir um novo imóvel. Enquanto esse imóvel começa a gerar renda, outro consórcio continua sendo pago. É uma lógica simples: enquanto algumas pessoas compram apenas um imóvel durante a vida, outras constroem patrimônio de forma contínua.

Mas existe um detalhe que pouca gente observa: nem todo consórcio é igual. Antes de assinar qualquer contrato, vale pesquisar quem administra o grupo, verificar se a empresa é autorizada pelo Banco Central, entender as regras de contemplação, os critérios para oferta de lances e ler todas as condições do contrato. No mercado imobiliário, uma decisão tomada apenas pela menor parcela pode sair muito cara no futuro.

Também é comum ouvir que oferecer um lance garante a contemplação. Não necessariamente. O lance aumenta as chances, mas cada grupo possui regras próprias e não existe garantia de que a carta de crédito será liberada naquele momento. Por isso, planejamento continua sendo a palavra mais importante.

Ao longo da minha carreira, percebi que pessoas bem-sucedidas financeiramente raramente perguntam apenas quanto custa. Elas perguntam qual estratégia faz mais sentido. Essa é uma diferença enorme. O consórcio não substitui o financiamento, assim como o financiamento não substitui o consórcio. São ferramentas diferentes para objetivos diferentes.

Quando entendemos isso, deixamos de procurar a “melhor modalidade” e começamos a procurar a modalidade mais adequada para a nossa realidade. E essa mudança de pensamento costuma fazer toda a diferença.

No mercado imobiliário, patrimônio não é construído apenas comprando imóveis. Ele é construído tomando boas decisões. Porque, no fim, a pergunta nunca deveria ser “consórcio ou financiamento?” A pergunta correta é: qual dessas ferramentas aproxima você, de forma mais inteligente, do imóvel que deseja conquistar?

Você sabia? O Brasil possui um dos maiores sistemas de consórcios do mundo, com milhões de participantes ativos. Para quem não tem urgência e busca planejamento de longo prazo, ele pode ser uma ferramenta eficiente de formação de patrimônio. A chave está em escolher a modalidade certa para o seu objetivo, e não apenas a parcela que parece mais baixa.

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