Série: A Jornada do Mercado Imobiliário. Episódio 16 Os empreendimentos que o tempo valoriza têm algo em comum.

O prédio envelhece. O bom projeto não.

Outro dia passei por um edifício em São Paulo que já tem mais de vinte anos. A fachada continua elegante, os jardins bem cuidados, os elevadores modernos e as áreas comuns parecem ter sido entregues há pouco tempo. Alguns quarteirões depois, encontrei um condomínio muito mais novo que já demonstrava sinais claros de desgaste: pintura marcada, infiltrações, áreas comuns sem vida e uma aparência de que o tempo passou rápido demais. Aquilo me fez pensar em uma pergunta que quase ninguém faz antes de comprar um imóvel: o que faz um prédio envelhecer bem?

A maioria das pessoas observa a planta, a varanda, o acabamento, o número de vagas e a localização. Tudo isso importa, mas existe uma pergunta que vale muito dinheiro e raramente aparece durante a visita ao decorado: como esse prédio estará daqui a vinte anos?

Essa reflexão faz ainda mais sentido quando olhamos para o momento do mercado imobiliário. A cidade de São Paulo continua registrando um dos maiores volumes de vendas da sua história recente. Nos últimos doze meses encerrados em maio de 2026 foram comercializadas aproximadamente 114,8 mil unidades residenciais novas, segundo o Secovi-SP. O programa Minha Casa, Minha Vida também ganhou ainda mais força e já representa cerca de 65% dos lançamentos da capital, com aproximadamente 95 mil unidades lançadas no acumulado de doze meses. Nunca tantas famílias estiveram realizando o sonho da casa própria ao mesmo tempo.

Mas comprar um imóvel é apenas o início da jornada.

Imagine dois empreendimentos entregues no mesmo ano. O primeiro foi pensado para durar. As tubulações possuem acesso para manutenção, a impermeabilização foi executada corretamente, os materiais da fachada suportam melhor a ação do tempo, os elevadores foram dimensionados para o fluxo do edifício e as áreas técnicas permitem reparos sem quebrar paredes. O segundo priorizou apenas reduzir o custo da obra. Poucos anos depois começam as infiltrações, as manutenções ficam caras, as áreas comuns envelhecem rapidamente e toda assembleia de condomínio passa a discutir obras emergenciais.

Os dois continuam sendo prédios.

Mas um preserva valor enquanto o outro começa a perder competitividade.

Existe um conceito muito utilizado pela engenharia chamado custo do ciclo de vida. Em vez de analisar apenas quanto custa construir, ele considera quanto aquele edifício custará para funcionar durante décadas. Muitas vezes um material um pouco mais caro na entrega reduz significativamente os gastos com manutenção nos anos seguintes. É uma decisão que o comprador dificilmente percebe, mas que faz enorme diferença ao longo do tempo.

É justamente por isso que grandes incorporadoras passam meses desenvolvendo um projeto antes mesmo do início da construção. Não se trata apenas de criar uma fachada bonita ou um apartamento bem distribuído. Cada decisão tomada nessa fase influencia a vida útil daquele edifício.

A posição das tubulações.

O sistema de impermeabilização.

A ventilação das áreas técnicas.

Os revestimentos escolhidos.

A proteção contra umidade.

O acesso para futuras manutenções.

A durabilidade dos equipamentos.

Tudo isso determina como aquele patrimônio será percebido daqui a dez, vinte ou trinta anos.

Quem compra um imóvel normalmente enxerga aquilo que está diante dos olhos. O acabamento impressiona. A vista encanta. A planta agrada. Mas o verdadeiro valor de um empreendimento está, muitas vezes, justamente naquilo que ninguém vê.

Existe uma frase muito conhecida entre arquitetos que sempre achei interessante: um bom projeto continua funcionando quando a obra já deixou de ser novidade.

E talvez seja exatamente isso que diferencia um prédio comum de um empreendimento que atravessa gerações.

No mercado imobiliário costumamos dizer que construir um edifício leva alguns anos. Construir sua reputação leva décadas.

Os empreendimentos mais admirados não são apenas aqueles que foram bonitos no dia da entrega. São aqueles que continuam desejados muitos anos depois, porque foram planejados pensando no futuro.

Um imóvel não termina quando a obra acaba. Na verdade, é exatamente nesse momento que sua verdadeira história começa.

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