Série: A Jornada do Mercado Imobiliário  Episódio Episódio 25-Tenho renda e nome limpo. Por que o banco pode negar meu financiamento?

“Mas eu tenho uma boa renda e meu nome está limpo. Por que o banco não aprovou meu financiamento?”
Essa é uma das perguntas que mais confundem quem está comprando um imóvel.
Existe uma percepção de que financiamento imobiliário funciona quase como uma conta matemática: se tenho renda suficiente para pagar a parcela e não estou negativado, o banco deveria liberar o dinheiro.
Na prática, não funciona exatamente assim.
Financiamento imobiliário é uma operação de crédito de longo prazo. Estamos falando de contratos que podem durar 20, 30 ou até 35 anos, dependendo da instituição e da modalidade. Por isso, o banco não analisa apenas quanto você ganha hoje. Ele tenta entender a capacidade de pagamento daquela operação e também analisa o imóvel que receberá como garantia. O próprio Banco Central informa que não existe uma renda mínima única para os sistemas SFH e SFI: a renda necessária depende do valor financiado, do prazo e das condições da operação.
É por isso que duas pessoas com exatamente o mesmo salário podem receber respostas diferentes do banco.

Nome limpo ajuda. Mas não garante aprovação.

Esse talvez seja o primeiro mito que precisamos quebrar.
Não ter restrições cadastrais é importante, mas isso é apenas uma parte da análise.
O banco também observa a renda comprovada, outras obrigações financeiras, o valor solicitado, o prazo do financiamento e sua política interna de crédito.
Pense em duas pessoas que recebem R$ 15 mil por mês.
A primeira praticamente não possui outras dívidas.
A segunda tem financiamento de automóvel, empréstimos e outras prestações mensais.
No papel, as duas possuem a mesma renda.
Para uma análise de crédito, porém, elas não necessariamente possuem a mesma capacidade financeira disponível.
O Banco Central explica que, antes de conceder o financiamento, a instituição verifica quanto da renda já está comprometido com outras dívidas e despesas. Em geral, os bancos trabalham com um limite de comprometimento próximo de 30% da renda, embora os critérios específicos dependam de cada instituição.
Na CAIXA, por exemplo, a informação pública é de que a prestação pode chegar a até 30% da renda familiar bruta, conforme a modalidade e as condições da operação.
E aqui começa uma diferença importante.
Renda não é a mesma coisa que capacidade de pagamento.

Ganhar R$ 20 mil não significa ter R$ 20 mil disponíveis

Vamos imaginar uma família com renda bruta mensal de R$ 20 mil.
Trinta por cento seriam R$ 6 mil.
Isso não significa automaticamente que o banco aprovará uma prestação de R$ 6 mil.
Esse número é apenas uma referência para entendermos a lógica.
A instituição ainda considerará as características da operação, outras dívidas, prazo, idade dos participantes, sistema de amortização, relacionamento bancário e seus próprios critérios de risco.
Por isso, aquela simulação feita rapidamente na internet não deve ser confundida com aprovação definitiva.
Simulação é uma estimativa. Aprovação de crédito é outra etapa.
Esse detalhe parece óbvio para quem trabalha no setor, mas não é óbvio para quem está comprando o primeiro imóvel.

O banco também analisa como você comprova aquilo que ganha

Outro ponto importante é a comprovação de renda.
Nem todo mundo recebe um salário fixo depositado todos os meses.
Temos empresários, profissionais liberais, autônomos, corretores, médicos, advogados, prestadores de serviço e pessoas cuja renda varia bastante ao longo do ano.
Isso não significa que essas pessoas não possam financiar.
Significa que a instituição precisará analisar a documentação e a forma de comprovação aceita para aquele perfil.
É justamente por isso que alguém pode dizer:
“Eu ganho muito mais do que o valor que aparece aqui.”
E ainda assim encontrar dificuldade na análise.
Para o banco, não basta a renda existir.
Ela precisa conseguir ser analisada e comprovada dentro dos critérios da instituição.

Existe outra análise que muita gente esquece: a do imóvel

Agora chegamos a uma parte muito interessante.
Você pode passar pela análise de crédito e ainda não ter a operação concluída.
Por quê?
Porque o banco também analisa o imóvel.
Na CAIXA, por exemplo, o fluxo público de uma operação habitacional deixa isso bastante claro: primeiro existe a simulação, depois a análise de crédito, depois a análise do imóvel e, somente após as avaliações, vem a assinatura do contrato.
O Banco Central também esclarece que a responsabilidade pela avaliação do imóvel financiado é do banco, que deve utilizar profissional sem vínculo com áreas interessadas na concessão daquele crédito.
Ou seja:
o comprador precisa ser aprovado, mas o imóvel também precisa passar pela análise da instituição.

“Mas eu negociei o imóvel por R$ 1 milhão.”

Tudo bem.
Isso significa que comprador e vendedor chegaram a um preço de R$ 1 milhão.
Não significa necessariamente que a instituição financeira chegará exatamente ao mesmo valor em sua avaliação.
Esse é um ponto que pode mudar completamente uma compra.
Imagine um imóvel negociado por R$ 1 milhão.
O comprador planejou determinada entrada e espera financiar o restante.
A instituição realiza sua avaliação e chega a um valor diferente.
Dependendo da linha de crédito e das regras do banco, isso pode alterar o valor máximo que poderá ser financiado.
E quem precisa cobrir a diferença?
Normalmente, o comprador terá de reorganizar a estrutura financeira da aquisição caso queira seguir com o negócio.
É por isso que eu sempre digo:
não comprometa todo o seu dinheiro apenas com a entrada imaginando que não existirão outras variáveis.
Comprar um imóvel exige margem financeira.

Um imóvel excelente também pode encontrar obstáculos no financiamento

Existe outra situação que surpreende compradores.
Às vezes, o problema não está na renda.
Está no imóvel.
A instituição financeira realiza análise documental e avaliação do bem. Dependendo do caso, questões documentais, registrais, construtivas ou relacionadas às condições de aceitação da garantia podem impedir ou atrasar a operação.
Isso ajuda a explicar uma situação aparentemente contraditória:
o banco pode aprovar o cliente e a compra daquele imóvel específico ainda assim não avançar.
São análises diferentes.
Na aquisição de imóvel usado pela CAIXA, por exemplo, primeiro é analisado o cadastro do comprador; depois da aprovação cadastral, o imóvel passa pela avaliação antes da assinatura do contrato.

Então o banco está dizendo que o imóvel é ruim?

Não.
E esse cuidado de linguagem é importante.
Uma instituição financeira está avaliando se aquela operação atende aos critérios necessários para o crédito que ela pretende conceder e para a garantia que receberá.
Isso não é exatamente a mesma coisa que emitir uma opinião universal sobre a qualidade do imóvel.
Um imóvel pode ser excelente para determinado comprador e, ainda assim, existir alguma característica que precise ser regularizada ou que não se enquadre em determinada linha de financiamento.
Da mesma maneira, uma negativa de um banco não significa necessariamente que nenhuma outra instituição financiará aquela operação.
Bancos possuem políticas de crédito, produtos e critérios próprios.

A idade também pode influenciar a estrutura do financiamento

Esse é outro ponto pouco lembrado.
O prazo disponível pode ser afetado pela idade dos participantes e pelas regras da instituição e dos seguros vinculados à operação.
Em uma linha divulgada pela CAIXA, por exemplo, a soma da idade do participante com o prazo de amortização não pode ultrapassar 80 anos e seis meses.
Na prática, isso significa que duas pessoas com a mesma renda, comprando imóveis de mesmo valor, podem receber estruturas diferentes de financiamento.
Uma pode conseguir prazo maior.
Outra pode ter prazo menor e, consequentemente, uma prestação mais elevada.
Mais uma vez: financiamento não é uma conta baseada apenas no salário.

E o score?

É claro que histórico de crédito e informações cadastrais podem participar da avaliação de risco.
Mas eu evitaria aquela simplificação comum da internet:
“Meu score é alto, então meu financiamento será aprovado.”
Não necessariamente.
O banco faz sua própria análise de crédito.
Um indicador isolado não substitui todo o processo.
O Banco Central relaciona entre as condições gerais para contratação a inexistência de determinadas restrições cadastrais e a existência de renda suficiente para o pagamento das prestações.
Portanto, ter um bom histórico ajuda.
Mas nenhum número isolado deveria ser tratado como garantia de aprovação.

Um erro que pode custar uma boa oportunidade

Agora quero falar com quem trabalha no mercado imobiliário.
Um dos erros mais evitáveis em uma negociação é descobrir tarde demais que o comprador não possui a estrutura financeira que imaginava.
O cliente visita.
Gosta.
Negocia.
A família se envolve emocionalmente.
O vendedor aceita a proposta.
Todos começam a planejar a entrega das chaves.
Só depois alguém pergunta:
“Você já fez uma análise de crédito?”
Essa pergunta deveria aparecer muito antes.
Não para constranger o cliente.
Para protegê-lo.
Um profissional preparado precisa ajudar o comprador a entender a diferença entre:
quanto ele gostaria de financiar;
quanto uma simulação indica;
e quanto efetivamente poderá ser aprovado.
São três coisas que podem ser diferentes.

A pré-análise pode evitar muita frustração

Antes de se apaixonar por um imóvel de R$ 1,5 milhão, é muito mais inteligente entender aproximadamente qual operação cabe na sua realidade.
Quanto você possui para entrada?
Quanto pretende manter como reserva?
Qual parcela cabe confortavelmente no orçamento?
Existe alguma dívida relevante?
Como sua renda será comprovada?
Pretende utilizar FGTS e atende às regras aplicáveis?
Qual prazo faz sentido?
A compra envolve apenas uma pessoa ou composição de renda?
Essas perguntas não tiram a emoção da compra.
Elas evitam que a emoção leve você para uma negociação que financeiramente não consegue concluir.

Aprovação de crédito também tem prazo e contexto

Outro erro é imaginar que uma aprovação obtida meses atrás continuará necessariamente válida nas mesmas condições.
A situação financeira do cliente pode mudar.
As políticas do banco podem mudar.
As taxas podem mudar.
O imóvel pode ser outro.
O valor solicitado pode ser diferente.
Por isso, quando uma negociação concreta começa, é importante trabalhar com informações atualizadas da instituição financeira.
No mercado imobiliário, uma frase perigosa é:
“Da última vez o banco aprovou.”
A operação que importa é a de agora.

Financiamento não deveria começar no banco

Pode parecer estranho, mas acredito nisso.
Ele deveria começar no planejamento.
Antes de escolher a instituição, você precisa entender sua própria realidade.
Quanto ganha.
Quanto gasta.
Quanto possui de entrada.
Quanto pretende manter investido.
Qual prestação consegue pagar sem transformar a casa dos sonhos em uma fonte permanente de preocupação.
Porque existe uma diferença enorme entre o banco aceitar emprestar e ser saudável para você tomar aquele dinheiro emprestado.
O banco analisa risco de crédito.
Você precisa analisar sua vida.

E se o financiamento for negado?

Primeiro: descubra o motivo.
Não adianta simplesmente procurar outro banco sem entender o que aconteceu.
Pode existir uma questão relacionada ao comprador.
Pode ser capacidade de pagamento.
Pode ser documentação.
Pode ser o valor solicitado.
Pode existir uma questão relacionada ao imóvel.
Pode ser uma característica específica daquela modalidade de crédito.
Dependendo da causa, existe solução.
Aumentar a entrada.
Reduzir o valor financiado.
Reorganizar dívidas.
Complementar documentação.
Regularizar alguma questão do imóvel.
Analisar outra instituição ou modalidade.
Ou simplesmente esperar o momento financeiro correto.
Negativa não significa necessariamente fim da compra.
Significa que existe alguma coisa naquela operação que precisa ser compreendida.

O que eu faria antes de procurar um imóvel

Se estivesse planejando uma compra financiada hoje, eu faria nesta ordem:
Primeiro, organizaria minha vida financeira.
Depois, entenderia quanto realmente quero colocar de entrada.
Faria uma análise preliminar de crédito.
Definiria uma faixa de preço confortável.
Só então começaria a procurar imóveis dentro daquela realidade.
Parece menos emocionante.
Mas é muito mais eficiente.
Porque o objetivo não deveria ser simplesmente conseguir um financiamento.
O objetivo deveria ser comprar bem e continuar vivendo bem depois da compra.

Você sabia?

Os bancos não analisam apenas o comprador. O imóvel também passa por avaliação antes da conclusão de uma operação financiada. Além disso, o Banco Central informa que cada instituição trabalha com seu próprio percentual de comprometimento de renda, embora, em geral, esse limite fique próximo de 30%.
E existe mais um detalhe importante: não há uma regra geral do Banco Central estabelecendo um prazo máximo único para todos os financiamentos imobiliários. Segundo a instituição, os bancos normalmente oferecem prazos entre 20 e 35 anos.
Talvez seja justamente por isso que financiamento imobiliário pareça complicado para tanta gente.
Não existe apenas uma pergunta.
Existem várias análises acontecendo ao mesmo tempo.
Comprador.
Renda.
Dívidas.
Prazo.
Imóvel.
Garantia.
Documentação.
Valor.
Quando entendemos essas peças, o financiamento deixa de parecer uma decisão misteriosa do banco e começa a fazer muito mais sentido.
E, para mim, essa é uma das funções mais importantes de quem trabalha no mercado imobiliário:
descomplicar aquilo que parece complicado sem simplificar aquilo que precisa ser levado a sério.
No próximo episódio da Jornada do Mercado Imobiliário: como um imóvel é avaliado antes de ser financiado ,e por que o valor do banco pode ser diferente do preço que comprador e vendedor negociaram.

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